sábado, 8 de julho de 2006

Diz a parede


Senão pelo talento, ao menos uma característica me aproxima de Galeano: o fascínio pela arte marginal da pichação. Discordo completamente do dicionário da Real Academia Espanhola que descreve os grafitos como sendo “de caráter popular e ocasional, sem transcendência”. Explico, mesmo correndo o risco de parecer excêntrica ou até conivente com o crime.

Depois de tomar nota de inúmeras inscrições em diferentes continentes– muitas delas forçadas pela ditadura uruguaia, Galeano concluiu que as paredes são “algo como a mais democrática de todas as imprensas”. E eu tomo a liberdade de complementar: talvez sejam também espaços privilegiados de expressão cultural.

Um muro branco vazio violado por garranchos cumpre como talvez nenhum outro instrumento a tarefa de prender a minha atenção, e o faz da maneira mais inusitada e despretensiosa, diferente de qualquer peça publicitária. As mãos anônimas e subversivas registram inquietações coletivas raramente verbalizadas.

Se me dedicasse a refletir sobre as expressões culturais de Passo Fundo, poderia lamentar o fim da companhia de teatro da UPF ou as jornadas literárias que perdi nesses anos todos longe. Mas não consigo resistir: será que aquela parede da Morom ainda diz “Não te envolva, alpiste”?

Eu passava lá quase todo dia esbaforida, correndo o risco de perder o ônibus pra Mato Castelhano, mas era simplesmente impossível não me permitir a uma jornada reflexiva para decifrar o enigma, destrinchando divagações e hipóteses sobre a mensagem. Ela pode não ter qualquer pretensão além de convocar ao comodismo. Ou então registrar a ameaça branca a um sujeito que atendesse pela alcunha. Mas gosto de pensar que a interpretação para essa aparentemente estúpida expressão é um contraponto ao comportamento ‘gaudério’, que promete reagir se alguém lhe 'pisar no pala'. Soaria como “te acalma, vivente”.

Independente da motivação, em termos de arte crítica, a pichação guarda mais identidade do que a já tão difamada caravela do descobrimento da Avenida Brasil.

8 de jul. de 2006

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