Escrito em maio de 2019
Uma volta pelo velho mundo, tão assombrado quanto o novo pelos conflitos sociais, ainda que em outra marcha.
A capital portuguesa sente o rebote da imigração das colônias. Brasileiros e africanos disputam as vagas de emprego no combalido porém resistente setor turístico. Como no Brasil, o ajuste das contas públicas é a justificativa para a reestruturação da previdência social. Mas 45 anos após o fim da ditadura salazarista, as vozes de esquerda seguem audíveis. A representação do PCP no parlamento é expressiva. O jornal anarquista completa cem anos de circulação. A celebração pública do golpe militar que depôs a ditadura se espalha por Lisboa e Porto. O 25 de abril da Revolução dos Cravos é feriado nacional, com transmissão das celebrações ao vivo durante 24 horas pela TV estatal. Os símbolos da liberdade e democracia são carregados pelos portugueses nas lapelas, nas flâmulas dos museus e nos prédios públicos abertos à visitação durante todo o dia.
A Inglaterra sublinha os tons das suas fronteiras em fase decisiva do Brexit. Grupos pró e contra a iniciativa separatista da direitista Tereza May ocupam diariamente a Parliament Square. Os apoiadores da saída do país da União Europeia reivindicam o respeito ao resultado do referendo. Mais do que isso, como a ministra, desejam a antecipação do prazo legal para a saída definitiva do bloco antes mesmo da eleição do Parlamento Europeu. Um pouco mais afastados do acesso principal do parlamento, mas não menos visíveis, os que seguram os cartazes Stop Brexit se esforçam para ampliar o apoio ao abaixo-assinado que reuniu 6 milhões de adesões pela revogação do Artigo 50 do Tratado de Lisboa e, assim, permitir que a Grã-Bretanha siga parte do mais expressivo bloco mundial. Estendida ao longo de uns dez metros, a faixa "Better together" propõe aos passantes um argumento fácil de assimilar.
Em maio de 2019, a França comemorava 101 anos do fim da primeira guerra mundial. Há a Festa da Vitória em 8 de maio. Sob intensa chuva, Emmanuel Macron repete o gesto secular de comparecer à cerimônia militar e depositar flores no túmulo do soldado desconhecido, no Arco do Triunfo. Depois repete o gesto no obelisco, do outro lado da Champs Elysees. As fachadas do comércio local ainda mantinham os sinais dos ataques do movimento gilets jaunes, os manifestantes identificados pelos coletes amarelos, organizados desde 2018 em resposta ao aumento dos combustíveis.
171 anos da abolição da escravidão com feriados nacionais.
O Jardim de Luxemburgo é fechado para a cerimônia de inauguração de uma exposição sobre a escravidão que acompanho ao vivo pela TV do Senado, mas precariamente considerando a barreira que o idioma francês representa para mim. Macron ouve as explicações dos guias da exposição, que resgatam a participação francesa no comércio mundial de escravos ao longo do século 18. Estudantes tem a chance de dirigir algumas palavras diante do chefe geral. São quatro, no total; duas alunas negras. Os negros, aliás, são minoria entre o público. Macron anuncia que até 2021 pretende erguer um monumento em homenagem às vítimas da escravidão.
Além deste compromisso "social", o presidente francês anunciara recentemente uma medida da agenda ambiental para o próximo ano pré-eleitoral. Os principais jornais traziam nas manchetes o compromisso do jovem chefe de estado e banqueiro com o uso exclusivo de plástico reciclável no território francês dentro do mesmo prazo. A própria direita classificou o discurso como oportunista.






