quinta-feira, 4 de junho de 2026

Diários de viagem: 2019 na Europa

 Escrito em maio de 2019

Uma volta pelo velho mundo, tão assombrado quanto o novo pelos conflitos sociais, ainda que em outra marcha. 




A capital portuguesa sente o rebote da imigração das colônias. Brasileiros e africanos disputam as vagas de emprego no combalido porém resistente setor turístico. Como no Brasil, o ajuste das contas públicas é a justificativa para a reestruturação da previdência social. Mas 45 anos após o fim da ditadura salazarista, as vozes de esquerda seguem audíveis. A representação do PCP no parlamento é expressiva. O jornal anarquista completa cem anos de circulação. A celebração pública do golpe militar que depôs a ditadura se espalha por Lisboa e Porto. O 25 de abril da Revolução dos Cravos é feriado nacional, com transmissão das celebrações ao vivo durante 24 horas pela TV estatal. Os símbolos da liberdade e democracia são carregados pelos portugueses nas lapelas, nas flâmulas dos museus e nos prédios públicos abertos à visitação durante todo o dia. 


A Inglaterra sublinha os tons das suas fronteiras em fase decisiva do Brexit. Grupos pró e contra a iniciativa separatista da direitista Tereza May ocupam diariamente a Parliament Square. Os apoiadores da saída do país da União Europeia reivindicam o respeito ao resultado do referendo.  Mais do que isso, como a ministra, desejam a antecipação do prazo legal para a saída definitiva do bloco antes mesmo da eleição do Parlamento Europeu. Um pouco mais afastados do acesso principal do parlamento, mas não menos visíveis, os que seguram os cartazes Stop Brexit se esforçam para ampliar o apoio ao abaixo-assinado que reuniu 6 milhões de adesões pela revogação do Artigo 50 do Tratado de Lisboa e, assim, permitir que a Grã-Bretanha siga parte do mais expressivo bloco mundial. Estendida ao longo de uns dez metros, a faixa "Better together" propõe aos passantes um argumento fácil de assimilar. 




Em maio de 2019, a França comemorava 101 anos do fim da primeira guerra mundial. Há a Festa da Vitória em 8 de maio. Sob intensa chuva, Emmanuel Macron repete o gesto secular de comparecer à cerimônia militar e depositar flores no túmulo do soldado desconhecido, no Arco do Triunfo. Depois repete o gesto no obelisco, do outro lado da Champs Elysees. As fachadas do comércio local ainda mantinham os sinais dos ataques do movimento gilets jaunes, os manifestantes identificados pelos coletes amarelos, organizados desde 2018 em resposta ao aumento dos combustíveis. 




171 anos da abolição da escravidão  com feriados nacionais. 

27 de abril é a data que marca o fim definitivo da escravidão. Definitivo por que o comércio de escravos chegou a ser proibido e retomado no passado. Em 1802, Napoleão Bonaparte restabeleceu o tráfico e a escravidão, suspenso no processo da Convenção revolucionária em 1794. Em 1815 houve novo veto ao comércio de escravos, mas a prática de tornar vidas negras propriedade foi retomada sob o pretexto da construção da colônia francesa na América Central.

O Jardim de Luxemburgo é fechado para a cerimônia de inauguração de uma exposição sobre a escravidão que acompanho ao vivo pela TV do Senado, mas precariamente considerando a barreira que o idioma francês representa para mim. Macron ouve as explicações dos guias da exposição, que resgatam a participação francesa no comércio mundial de escravos ao longo do século 18. Estudantes tem a chance de dirigir algumas palavras diante do chefe geral.  São quatro, no total; duas alunas negras. Os negros, aliás, são minoria entre o público. Macron anuncia que até 2021 pretende erguer um monumento em homenagem às vítimas da escravidão.

Além deste compromisso "social", o presidente francês anunciara recentemente uma medida da agenda ambiental para o próximo ano pré-eleitoral. Os principais jornais traziam nas manchetes o compromisso do jovem chefe de estado e banqueiro com o uso exclusivo de plástico reciclável no território francês dentro do mesmo prazo. A própria direita classificou o discurso como oportunista.


Memórias feministas em 2019

 

Amigas queridas.

Esta carta é instigada pelo pedido de vocês sobre indicações de conteúdos feministas, mas é muito mais pra mim do que pra vocês, e por isso agradeço ainda mais a paciência da leitura.

Tenho amigas doutoras na área e que dão cursos e palestras de introdução, história e classificações do feminismo no mundo e no Brasil. Meu ponto de vista é mais instintivo

Falar de feminismo hoje é bem diferente do que há cinco anos. É preciso fazer um retrospecto muito rápido pra poder chegar em 4 de janeiro de 2019, cenário controverso que acomoda feministas autodeclaradas em todas as áreas do conhecimento e Bolsonaro presidente.

As primeiras feministas foram as mulheres ricas, burguesas. A Bertha Lutz, nossa sufragista-mor aqui no Brasil, alcançou este intento por que teve oportunidade de estudar na Europa, passar num concurso público e ser uma das primeiras mulheres a trabalhar como funcionária pública no governo. Quantas mais poderiam fazer isso no Brasil dos anos 30? Graças a elas, podemos votar. Foi a bandeira que ela levantou na época.  Aliás, Bertha nunca casou ou teve filhos. Sempre que esta afirmação se refere a uma mulher, inevitavelmente nos perguntamos por que. Talvez por que não precisasse, como a maioria maciça das mulheres da época. Talvez por que fosse sapatão e esta possibilidade não estava bem colocada na época.

Rose Marie Muraro conta que para ser feminista e ser feliz no final do século passado, vivia uma vida dupla traindo o marido. Era o contexto que ela tinha.

Os métodos, reflexões e pensamentos de feministas históricas que admiro profundamente  não necessariamente cabem nos dias de hoje. Talvez o feminismo seja, no fundo, a luta pela liberdade de sermos imperfeitas, como todas as pessoas são. De nos reconhecermos pessoas em construção e de sermos o que quisermos ser: Anitta ou Damares, desde que não cague regra pra ninguém.

Ao longo da vida, deixei algumas cascas políticas que não me cabiam mais. Mas lembro de sempre falar pra Simone, minha amiga e minha Beauvoir pessoal, que ela sempre me veria no feminismo. Hoje sei que depende. O rótulo sozinho não serve a nada.

Dia das namoradas

 

Amor, você me emudece. Me faz rasgar e recomeçar bilhetes, sempre insuficientes. Desmorona os muros das datas comerciais com as tuas poções de palavras mágicas que resumem o meu mundo. O nosso mundo. Este lugar torto que podemos atravessar porque estamos de mãos dadas, e isso muda tudo. Tu me emudece e me mostra a liquidez de tudo o que importa. Me ensinou a mergulhar – e eu tinha tanto medo de água.

Eu não sabia o que era, lembra? Não sabíamos? Já sabemos, será? Essa história que ignora roteiros desde aquele dia em que os teus olhos finalmente pararam nos meus que ali esperavam sem esperar. Eu não sabia, apenas entendi. Desde então fugimos juntas pelo planeta, cúmplices nessa missão que parecia impossível, a de existir plenamente e resistir dias escuros e noites claras.

Hoje somos outras

Quero pensar que o que temos, único assim, seja ao mesmo tempo comum, e que transborde por aí.

Quero a sorte de viver entre os teus bichos de pelúcia. Até lá, prometo aprender isso também.

Você é todo dia, e muito maior.

2019

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Pra não te ver

Eu tenho dois minutos pra não mais te ver. Pra permitir que uma pequena coleção de frases soltas, algumas de mãos dadas, se projete na minha memória feito slides antigos. Mesmo que a imagem que carrego seja ainda tão nítida que se eu esticar os dedos talvez dê tempo de tocar o teu cabelo, esse é o tempo que tenho pra te transformar em fotografia amarelada escondida no fundo da gaveta. É que o tempo de doer não pode consumir o tempo de amar.

Publicada em

09/06/2011 21:48

sempre

às vezes, a tua lembrança me assalta, sombra póstuma onipresente a diluir-se pelos livros, cheiros, sons e silhuetas. como se entrasse pela porta sempre entreaberta à tua espera e te sentasses no canto à meia-luz, a me contemplar. nada fala, nem sorri. apenas rouba um punhado de pensamentos insanos e doloridos, volta os abismos castanhos a mim em despedida, e sai em silêncio, sem sequer ranger a dobradiça. e aí, compreendo: tu voltas.

Ritual

No dia do seu 28º aniversário, Anita jogou no lixo a ampulheta quebrada com o pouco que restava da areia azul e todos os grãos-momentos que jamais seriam consertados.

domingo, 17 de abril de 2011

Jacaré morre afogado e deixa centenas de órfãos

Perdemos o eterno João Carlos Tiburski. Restou-me a homenagem num texto que aproveitou muito modestamente os ensinamentos do mestre. E umas doses de vodka.

“E aí, jacaré?”. Camisa aberta até o peito, cabelos irremediavelmente brancos, recebia num entresorriso amarelado à porta da FAC. Praquele bando de aspirantes a jornalistas pouco mais que adolescentes era inusitado, pra dizer o mínimo, descobrir que teria aquele sujeito como mestre. E essa era a primeira lição, fatal a quem não pudesse absorver: a de enxergar para além da estética, e assim chegar à essência. Afinal, havia outros preconceitos a suplantar para decifrar o desafio literário e jornalístico por trás dos títulos sugeridos nas aulas de Redação: matou a mulher e guardou o corpo no freezer.

Com João Caros Tiburski aprendemos que jornalismo é 99% transpiração e 1% inspiração. Que o melhor texto dorme na gaveta pra renascer no dia seguinte violado pelo próprio autor. Que o criador gráfico não precisa dominar a técnica, mas a arte. Que a rotina não pode seqüestrar a criatividade. Práticas que nem sempre encontram lugar no jornalismo nosso de cada dia. Mas até pra essas situações havia uma fórmula: bastava se dedicar a aprender o feijão com arroz.

Homem de paixões, boêmio, cortejador, literato, Tiba era amável e sensível até o limite que permitiam a sua paciência e ego. Capaz de conciliar as virtudes e os vícios mais diversos em uma só personalidade da primeira aula da manhã até a mesa do bar. Tolerante com os sem talento, exigente com os virtuosos. Por trás do bufão, um crítico. Um artista da forma e do conteúdo. Disseminador de sementes raras, difíceis de brotar no solo árido das mentes juvenis, mas que produzia raízes vigorosas quando bem cultivadas.

Ao mestre – que nos ensinou o gênero, mas para quem jamais imaginamos escrever um obituário – a minha gratidão profunda, e também a dos centenas de órfãos do curso de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo.

(FOTO ROUBADA DE LUGAR INCERTO. QUEM DE DIREITO FOR, PODE REIVINDICAR O CRÉDITO)